janeiro 09, 2017

três crianças

Ontem foi um dia bom. Fui eu, minha família e alguns agregados para outra cidade aproveitar prazeres a que a minha não oferece. Todavia, sair da rotina é sempre bom. Houveram sim alguns contratempos, mas não vêm ao caso.

O caso é que estávamos no recolhendo para ir embora, e enquanto eu aguardava minha vez na porta do banheiro, fiquei a observar três belas crianças a brincar com o suporte duma placa. As três pareciam ter a mesma faixa etária, três ou quatros anos. E para melhor ilustrar esse relato, vou nomear o menino branco como Jorge, a menina branca de cabelos castanhos será a Maria e a negra de cabelos negros e ondulados, poderia se chamar Vera. Todas crianças apresentadas, com seus devidos nomes fictícios, podemos então partir para a reflexão.

A Vera se rodopiava ao redor do suporte de aço e desafiava as outras crianças a quem aguentava o calor da comprida barra de ferro por mais tempo. O Jorge logo soltou e gritou, "aí! muito quente" voltando ao desafio. A Maria parou um pouco e olhou para as mãos, soprando-as e em seguida voltou a brincadeira. A Vera, correndo em círculos, segurando-se firmemente no suporte, ria junto as duas outras crianças e nem por um segundo exclamou vitória. Ali os três eram juntamente iguais em vontade de se divertir. 

As três crianças arrancaram suaves sorrisos com gosto de nostalgia no canto de minha boca, nos primeiro poucos segundos em que eu observava-as enquanto aguardava. Então, pisquei o olho, eu deixei de ver belas crianças gozando a infância. Eu os vi adultos.

Eu projetei o Jorge, que mesmo mais fraco que muitas meninas, teria o triplo de oportunidades e direitos que qualquer uma. Eu vi a Maria liderando um protesto nas ruas por receber menos que muitos homens, inclusive o Jorge. E após gritos de guerra durante um dia inteiro, sem se alimentar direito, a Maria chega em casa e briga com a Vera, porque naquele dia não houve almoço, mesmo ela quase nunca almoçando em casa. Vera trabalha 44 horas semanais para a Maria, em troca de um terço do salário da Maria, para ajudar as contas da mãe em casa.

Jorge, Maria e Vera agora correm atrás um do outro, num ciclo vicioso de cegueira e de abuso. Jorge sempre rir das causas de Maria. Maria não sabe que explora Vera. Vera acha que é a culpa de sua mãe não ter tempo para a faculdade. E eu não precisaria ter descrito a cor deles se o relato fosse sobre suas vidas adultas.

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